sábado, 14 de junho de 2025

Carajá do Sul (Início)

 Naquela época eu não entendia direito o que me tornava tão... diferente.
Talvez fosse minha fixação.
Talvez fosse o fato de que, enquanto outras crianças colecionavam figurinhas, falavam de futebol ou jogos, eu colecionava relatos.

Relatos de coisas que não deveriam estar aqui.
De luzes no céu.
De desaparecimentos estranhos.
De vozes captadas em rádios desligados.

Eu era o garoto dos alienígenas.
Não por escolha.
Mas porque... se não fosse isso, eu não seria nada.

Meu blog, o “Arquivo U.F.O”, era minha única ponte com o mundo.
Lá eu publicava tudo que encontrava:
- Sinais estranhos;
- Fotos borradas;
- Mapas com marcações;
- Relatos distorcidos de gente que jurava ter visto o impossível.


Ninguém levava a sério, claro.
Nem na escola, nem na minha própria casa.

Minha mãe tentava.
Fingia entender.
Fingia apoiar.
Mas eu via nos olhos dela — aquele misto de cansaço, preocupação e... tristeza.
Ela só queria que eu fosse uma criança normal. Que tivesse amigos. Isso me entristecia.

As férias foram ideia dela.
“Vamos sair um pouco, Leo”, ela disse.
“Vai te fazer bem.”

Ela escolheu Carajá do Sul — uma cidade pequena, turística, praia bonita, poucas pessoas, clima calmo.

A pousada ficava próxima da orla.
Pequena, aconchegante, com cheiro de maresia e móveis velhos que rangiam a cada passo.
Para ela, seriam dias de descanso.
Para mim... seria mais uma oportunidade.

Eu não estava interessado em praia.
Nem em banho de mar.
Nem em relaxar.
Eu estava interessado nos céus



Saí sozinho logo no primeiro dia.
Gravador no bolso.
Câmera pendurada no pescoço.
Caderno de anotações cheio de rabiscos, coordenadas e teorias.

Andei pela cidade, mapeando antenas, olhando para o horizonte, observando qualquer sinal que parecesse fora do lugar.

E foi no meio dessa busca que... encontrei eles. Aqueles que mudaram minha vida.

A princípio, eram só vozes.
Risos.
Conversas de adolescentes na praia principal. Cada um em seu próprio núcleo.

Eu quase virei na direção contrária.
Velho instinto.
Fugir antes que zombassem de mim, como sempre fizeram.

Mas algo me segurou.
Talvez... o som de uma frase.
Não. O sentimento que eu gostaria de mudar. Ter amigos.

Quatro.
Rindo, discutindo, desenhando algo no chão com gravetos.

Gabriel. Camisa preta, cabelo bagunçado, olhos que pareciam mais atentos do que qualquer um da idade dele deveria ter.

Ivan, mais alto, extrovertido, sorriso fácil, aquele tipo de pessoa que parece ser amigo de todo mundo — ou quase.

Clarabella, uma garota que parecia a princípio uma garota metida e riquinha. Se provava sempre ter um enorme coração por aqueles a sua volta.

E Camily, que, na época, sorria. Uma presença mais tranquila.


Por alguns segundos, só fiquei ali, olhando.
E então, sem perceber, minhas pernas me levaram até eles.

Por momentos assim que hoje sou quem sou. Por eles sou quem sou.
Naquele momento, algo mudou em mim.
Não saberia explicar direito.
Mas pela primeira vez na vida, a sensação de ser... parte de algo.

De não ser o estranho.
De não ser o esquisito.

Pela primeira vez, eu era... Leo.
E isso bastava.





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