Registro de Leônidas Lakota
Elemento Primário: Conhecimento
Porte: Pequeno (antes de se alojar) / Médio (quando aflora).
Sentidos: Percebe padrões mentais e variações cognitivas, mas não possui visão tradicional.
Resistência: Conhecimento.
Fraqueza: Sangue.
Físico: Extremamente ágil quando fora do hospedeiro, movendo-se rapidamente para encontrar um novo corpo. Frágil sozinho, mas difícil de atingir quando alojado no cérebro. Altamente inteligente, entende padrões mentais e manipula seu hospedeiro para evitar ser detectado.
Padrão de Ameaça: Parasítico e paciente, infiltra-se em hospedeiros sem levantar suspeitas e altera seus sentidos gradualmente. Evita confronto direto, mas aflora instantaneamente se ameaçado, matando o hospedeiro no processo e atacando em seguida. Ao fim do ciclo, transforma a vítima em uma casca vazia cheia de ovos antes de buscar outro alvo.
Dedicatória:
O chamado nos levou a uma fazenda isolada nos arredores de Colares. Inicialmente, parecia apenas um caso estranho, mas nada além do que já havíamos lidado antes. Agroglifos haviam surgido nos campos, desenhos geométricos impossíveis de terem sido feitos por mãos humanas. A maioria das pessoas associava aquilo a fenômenos atmosféricos ou brincadeiras elaboradas. Mas a esposa do fazendeiro, desesperada, nos contou algo diferente.
Seu marido estava mudado.
Não havia desaparecido, nem estava morto. Mas ele não era mais o mesmo.
Nos três dias que passamos na fazenda, aprendemos que não estávamos lidando com nada que conhecíamos antes. Isso sendo abrigados por eles em um quarto reserva.
O Início da Investigação
A primeira coisa que fizemos foi observar. O fazendeiro ainda mantinha sua rotina, mas algo em seus movimentos não parecia natural. Ele estava um pouco mais lento, como se sua mente estivesse atrasada em relação ao próprio corpo. Às vezes, suas mãos hesitavam ao segurar objetos, como se precisasse de um segundo extra para lembrar o que estava fazendo.
A esposa mencionou que ele vinha reclamando de problemas na visão, dizendo que as cores pareciam “apagadas” ou “distorcidas”. Quando testamos, pedimos para ele nomear as cores de alguns objetos da casa. Ele errou todas.
O próximo sintoma foi mais perturbador.
Durante um almoço, ele cortou o dedo ao preparar a comida. Uma ferida pequena, mas o que nos chocou foi o sangue que escorreu.
Verde.
Denso, viscoso, borbulhando levemente ao entrar em contato com o ar. Quando caiu no chão de madeira, fez um pequeno chiado, como se estivesse corroendo a superfície.
Gabriel e eu trocamos olhares. Aquilo não era normal. (Não comemos a comida)
O Medo do Calor e do Frio
A evidência final veio por acaso.
No final da tarde, estávamos perto do celeiro quando a esposa acendeu o fogão a lenha para cozinhar. No instante em que a chama crepitou, o fazendeiro recuou involuntariamente. Não foi um movimento consciente. Ele deu um passo para trás e desviou o olhar.
Mais tarde, testamos de novo.
Durante a noite, quando a temperatura caiu, deixamos propositalmente um copo de água gelada na frente dele. Dessa vez, ele evitou tocar no copo, apenas segurando a borda com a ponta dos dedos.
Aquele comportamento se repetiu mais algumas vezes ao longo da investigação. Qualquer variação extrema de temperatura parecia deixá-lo desconfortável, inquieto. Mas o medo do calor era o mais evidente.
Foi assim que percebemos: o que quer que estivesse dentro dele não reagia bem a mudanças bruscas de temperatura.
E se aquilo não suportava variações térmicas, então talvez pudéssemos forçá-lo a sair.
O Plano para Extrair o Interflorado
Nossa maior dificuldade era fazer isso sem alertar a criatura. Não sabíamos o que aconteceria se ele percebesse nossa intenção—mas sabíamos que, se esperássemos demais, o aflorar aconteceria.
E quando isso acontecesse, o fazendeiro provavelmente morreria.
Precisávamos agir antes que chegasse nesse ponto.
Nosso plano foi simples, mas calculado. Criamos uma armadilha usando a própria hesitação dele contra ele.
Preparamos dois barris no estábulo. Um cheio de água extremamente gelada, trazida do poço durante a noite, e outro que aquecemos usando brasas do fogão a lenha. Chamamos o fazendeiro para ajudar com um “trabalho de rotina”—transportar a água para um bebedouro de animais. Se nossa teoria estivesse certa, ele hesitaria ao tocar na água.
Foi exatamente o que aconteceu.
Assim que mergulhou a mão no barril gelado, seu corpo inteiro travou.
Ele ficou paralisado por um instante, e então deu um passo para trás, como se tivesse recebido um choque. Gabriel o chamou para pegar um balde de água quente. Ele hesitou ainda mais.
Então, o som começou.
O Encontro com o Interflorado
Foi diferente de tudo que já ouvimos antes. Não era um grito.
Era uma frequência.
Algo agudo, reverberando em nossos ossos, se infiltrando em nossas mentes como uma onda invisível. O fazendeiro segurou a cabeça, o rosto contorcido em dor. O que estava dentro dele percebeu.
Seu corpo se enrijeceu, a respiração ficou irregular. As veias começaram a se contorcer sob a pele. Ele estava entrando em colapso.
Se não fizéssemos algo, o aflorar aconteceria ali mesmo.
Sem perder tempo, Gabriel agarrou o fazendeiro e, com toda a força, mergulhou-o na água gelada. O choque térmico atingiu seu corpo inteiro de uma só vez.
O grito que ecoou não foi dele.
Foi algo vindo de dentro dele.
A coisa saiu pela boca lentamente, os membros se desenrolando como raízes vivas. Duas mãos entrelaçadas, cada uma coberta de olhos que piscavam sem padrão. A cauda longa se moveu como se procurasse um novo hospedeiro.
O som aumentou. Agora, era uma sequência de ruídos desconexos, uma voz que tentava se comunicar em uma linguagem impossível.
Mas o Interflorado estava vulnerável.
Ele havia saído do hospedeiro antes do tempo esperado, ainda fraco e exposto. Gabriel agiu rápido, separando a criatura de vez com sua lâmina. O corpo do Interflorado se dissolveu em um líquido opaco, escorrendo pela madeira do estábulo.
O fazendeiro desmaiou. Mas estava vivo.
E pela primeira vez, vimos com nossos próprios olhos algo que não pertencia nem ao Outro Lado, nem à Realidade. EU SABIA EU SABIA QUE ELES EXISTIAM, EU SABIA, SÃO ALIENS, OU MELHOR, ALHEIOS. E ELES VEEM DO OUTRO LADO, EU ENTREI NO MUNDO CERTO.
O Primeiro Alheio
Depois desse encontro, passamos semanas tentando entender o que havíamos acabado de encontrar. O Interflorado não era como nada que já havíamos visto antes. Ele não veio do Sangue, nem da Morte, nem da Energia.
E então, conforme estudamos suas origens, encontramos outros nomes.
E a pior pergunta ainda não foi respondida:
O que eles querem? De onde vêm?
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