Registro de Leônidas Lakota
Elemento Primário: Difícil de discernir, diria que é Energia.
Porte: Enorme.
Sentidos: IMPOSSÍVEIS.
Resistência: Entender é a pior parte.
Fraqueza: Provavelmente Conhecimento.
Físico: (-NULO-) (Provavelmente muito forte ágil, principalmente na água)
Padrão de Ameaça: Não mergulhe até o abismo dentro da água, e não siga a luz vermelha.
Dedicatória:
O medo do oceano é um instinto primitivo.
Desde os primeiros humanos que pisaram na costa, nós tememos o que se esconde abaixo da superfície. O mar é vasto demais, escuro demais, desconhecido demais. Criaturas que nunca vimos, lugares que nunca exploramos, profundezas que sequer podemos alcançar sem sermos esmagados pela própria pressão da água. Nós não pertencemos ao fundo do oceano.
Mas algo pertence.
Algo que sempre esteve lá.
Algo que nunca quis ser encontrado.
A investigação nos levou aos arquipélagos de Colares.
O caso começou como qualquer outro: desaparecimentos no mar. Mergulhadores experientes, gente treinada para suportar as condições extremas das profundezas, gente que sabia exatamente quais eram os perigos de seu trabalho. Ainda assim, sumiam sem explicação.
Não havia destroços de equipamento. Não havia corpos.
Só havia um rastro em comum: um brilho vermelho nas profundezas, a última coisa que suas vítimas viam antes do fim.
Começamos pelos relatos.
Mergulhadores sobreviventes falavam de algo estranho no fundo do oceano, algo que se movia diferente de qualquer criatura conhecida. No início, achavam que era uma espécie rara de lula, talvez uma Magnapinna, com seus longos tentáculos flutuando no vazio.
Mas a ilusão nunca durava. O instinto logo alertava que aquilo não era natural.
"A forma translúcida se arrastava entre as rochas e recifes sem tocar o solo, seus movimentos impossíveis, angulares, como se a própria água não a afetasse."
"Então, vinham os sons."
"Não eram ruídos comuns do oceano."
"Eram gritos."
Gritos vindos de todos os lados, mas impossíveis de rastrear. Vozes humanas misturadas à pressão do fundo do mar, implorando, chorando, sussurrando.
E então, a luz vermelha.
No instante seguinte, tudo desaparecia.
A Ordem Santoro tinha alguns registros do fenômeno. Uma potencial criatura, que foi arquivada e descartada, talvez seja isso que estamos atrás.
Imagens capturadas por drones subaquáticos mostravam silhuetas alongadas e translúcidas se movendo nos limites da visibilidade. A pele esverdeada e gelatinosa das criaturas brilhava fracamente, seu interior repleto de um sistema nervoso bioluminescente, pulsando com um tom vermelho incômodo.
Cálculos que fiz indicavam que, embora seus corpos principais tivessem cerca de dois metros de altura, seus membros extremamente finos podiam alcançar até oito metros de comprimento.
O mais perturbador era o que acontecia antes do ataque.
A pele translúcida se expandia, como se se dividisse em inúmeras camadas maleáveis. E no instante final, a bioluminescência aumentava, revelando fileiras incontáveis de pequenos dentes pontiagudos escondidos dentro da criatura.
O ataque era instantâneo. O Profundo dilacerava suas vítimas, despedaçando carne e ossos antes que pudessem reagir
Mas o mais assustador não era isso. Era o que vinha depois.
Não sobrava nada...
Os corpos não afundavam, não boiavam para a superfície. Nenhum rastro de tecido, nenhum fragmento de equipamento, nenhum vestígio da existência da vítima. Apenas uma mancha vermelha dissolvendo-se no escuro.
A pista mais valiosa que encontramos foi uma transmissão recuperada de um mergulhador desaparecido.
Foi o último contato registrado antes de sua potencial morte.
"Base, atingindo profundidade de 680 metros. Pressão atual de 68 atmosferas absolutas. Temperatura, 4 graus Celsius. Movimento detectado nas proximidades, possível forma de vida. Ela parece bioluminescente. É uma... lula? Negativo, organismo não identificado. Se movendo de maneira acelerada e irregular. Que... Eu nunca vi algo se mover... assim. Checando sistema de gases para neutralização de narcose por nitrogênio... tudo está funcionando. A criatura... A criatura está se aproximando! Ativando propulsores de... O que é... A luz está...? Base, abortar missão! Abortar missão! A LUZ TÁ CHEGANDO! ALGUÉM ME TIRA DAQUI! BASE!
POR FAVO—[ruído ininteligível]."
POR FAVO—[ruído ininteligível]."
O silêncio que veio depois foi definitivo. A equipe de resgate nunca encontrou nada.
Passamos semanas nos arquipélagos tentando rastrear algo além das histórias.
Alugamos barcos, mergulhamos, investigamos ilhas inabitadas e formações subaquáticas que não estavam nos mapas. Seguimos relatos de pescadores que viram sombras se movendo sob seus barcos, de cientistas que perderam equipamentos de monitoramento profundo sem nenhuma explicação.
Nunca encontramos nada. Mas o medo estava lá.
Em uma das noites, enquanto estávamos no barco analisando gravações sonares, ouvimos um som vindo das águas.
Um estalo seco.
Depois, outro.
Gabriel olhou para mim. Nenhum de nós se mexeu.
O terceiro estalo veio mais perto. Algo havia agarrado o barco.
E então, os gritos.
Idênticos aos que ouvimos nas gravações.
O mesmo tom de pavor, o mesmo desespero. Vozes humanas, mas sem origem.
Levei a lanterna até a água. Nada. Nenhum rastro. Nenhuma movimentação. Apenas o escuro absoluto do oceano olhando de volta... Tarde demais.
Desligamos tudo naquela noite.
Fizemos vigília até o amanhecer, mas não falamos mais sobre isso.
Nunca vimos o Profundo. Mas sabemos que ele está lá.
Na ausência de corpos. Nos gritos presos dentro da água. Nas manchas vermelhas que não deveriam existir.
Esperando. Olhando.
Chamando quem tiver coragem o suficiente para mergulhar fundo demais.
Que as profundezas nunca me chamem – e que a luz vermelha nunca brilhe para mim.
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