segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Relato de Alheio: Memoflígico

Registro de Leônidas Lakota

Elemento: Conhecimento
Porte: Médio.
Sentidos: Capaz de ler memórias e pensamentos, mas incapaz de compreender emoções.
Resistência: Alta contra Conhecimento—não pode ser enganado por ilusões ou truques mentais.
Fraqueza: Sangue.
Físico: Flutuante e translúcido, seu corpo é extremamente flexível e difícil de atingir fisicamente. Seus múltiplos olhos verdes são seu único traço sólido e sua verdadeira fonte de percepção. Sua resistência física é baixa, mas sua influência psicológica compensa essa fraqueza, tornando-o uma ameaça difícil de combater diretamente.

Padrão de Ameaça: Manipulador e furtivo, o Memoflígico nunca ataca fisicamente, preferindo distorcer as memórias e pensamentos de suas vítimas para desestabilizá-las. Utiliza sinais eletrônicos para se comunicar e criar ilusões extremamente convincentes, imitando perfeitamente vozes e pessoas conhecidas. Ele só se manifesta fisicamente quando está sozinho com um alvo que confia nele, tornando a interação inevitável. Caso todos os dispositivos eletrônicos ao redor sejam destruídos descontroladamente, ele se transferirá para outro lugar, tornando sua derrota impossível. Sua maior fraqueza está em sua incapacidade de compreender emoções verdadeiras, limitando suas manipulações ao que é apenas lógico e previsível.

Dedicatória:
Se há algo que aprendi ao longo dos anos, é que as memórias são traiçoeiras. Pensamos que elas são fixas, que o passado está selado, imutável. Mas basta um detalhe fora do lugar, uma nova informação, um sussurro na hora errada, e tudo se desmancha.
Foi assim que essa coisa quase nos destruiu.
Ela não nos perseguiu. Não nos atacou. Não nos caçou.
Ela apenas nos fez duvidar um do outro.
E isso foi mais letal do que qualquer garra ou dente que já enfrentei.

Dia 1: A Voz

A loja de computadores antigos era um túmulo esquecido pelo tempo. Um daqueles lugares onde o passado parecia se agarrar às paredes, onde as telas quebradas refletiam mais do que apenas poeira e ferrugem.
O caso parecia simples. Falhas elétricas constantes, rádios captando transmissões impossíveis e o mais estranho de tudo: mensagens digitadas em telas sem energia.
Quando entramos, o cheiro de metal queimado pairava no ar. Havia cabos emaranhados pelo chão, monitores empilhados como lápides tecnológicas, e um silêncio absoluto. Nenhum som da rua parecia penetrar ali dentro.
Foi Gabriel quem notou primeiro.
— Tem alguma coisa ligando esses equipamentos. — Ele passou os dedos por um teclado quebrado. O monitor à frente piscou, mostrando um texto fragmentado:
"Vocês ainda estão aí?"
Meu coração parou.
— Não pode ser…
Dessa vez uma voz saindo dos alto falantes.
"Por que vocês nos deixaram?"
Meu sangue gelou. Gabriel ficou tenso ao meu lado. Nós conhecíamos essa voz.
Ivan.
Ele estava morto há anos.
Mas ali estava ele, falando conosco de dentro de um computador desligado.
E então, outra mensagem surgiu.
"Clarabella está aqui também."

Eu TIVE que sair dali, não estava me sentindo bem, Gabriel ficou lá mais um tempo depois me acompanhou... Voltamos pra lá amanhã...

Dia 2: O Passado

Não dormimos naquela noite. Gabriel e eu sabíamos que aquilo não era um fantasma. Algo estava nos observando, estudando nossas reações, brincando com nossos sentidos.
A loja parecia mais fria quando voltamos no dia seguinte. Havia algo diferente, como se a própria arquitetura tivesse se alterado. Os monitores piscavam sem motivo, rádios ligavam sozinhos, e o estático dos alto-falantes ressoava como um zumbido incessante.
E então, as vozes começaram.
Vocês se esqueceram de nós.
Era a voz de Clarabella, nítida e real, vinda de um rádio quebrado.
Deixaram a gente morrer.
Ivan.
Por que vocês não salvaram a gente?
As luzes piscaram, e quando se estabilizaram, eles estavam lá.
Clarabella e Ivan. Em pé, no meio da loja.
Eu senti meu coração acelerar. O instinto dizia que não era real, mas meus olhos diziam outra coisa.
— Isso não pode ser… — Gabriel murmurou ao meu lado.
Mas Clarabella deu um passo à frente. Os olhos cheios de lágrimas.
— Você sempre desconfiou dele, não é Leo?
Ela olhou diretamente para mim.
— Você achava que ele ia te abandonar, assim como vocês nos abandonaram. Você até pensou em abandonar tudo e ele pra sempre não é? 
O silêncio se tornou insuportável. Gabriel virou a cabeça para mim, os punhos cerrados.
— O que ela está falando?
Eu abri a boca para responder, mas Ivan interrompeu.
— E você, Gabriel. Você sabe que ele mentiu para você. Você sente isso. Sempre sentiu. Nos ainda estávamos vivos quando ele te tirou de lá. Eles nos deixou morrer.
A temperatura da sala caiu. Algo estava diferente. Eles estavam mais nítidos.
Não era apenas uma projeção.
Era uma ilusão completa.
E então, Gabriel me empurrou.
— Você esconde alguma coisa de mim?
— O quê? Não, isso é absurdo.
— Então diz. Você confiava em mim naquela noite. por isso só eu saí vivo?
A voz de Clarabella sussurrou novamente.
Ele hesitou em nos salvar, e só salvou você, por que você é burro e útil.
E eu realmente hesitei, eu queria sair vivo, e pelo menos com alguém. Pensei em todas as minhas memórias e todas as vezes que eu queria só sumir desse mundo, com uma bala na cabeça...
Por uma fração de segundo. Mas foi o suficiente. Eu não sabia como reagir...
Gabriel sacou a lâmina.
Eu puxei minha arma.
E a ilusão sorriu, observando do canto da loja.

Dia 3: O Acerto de Contas

Nós realmente lutamos.
Não foi um treinamento, não foi uma simulação. Foi real.
A ilusão nos tomou completamente e nos ensandeceu, nós esquecemos que havia algo manipulando nossas mentes. Só restava a raiva, a dúvida, a frustração acumulada ao longo dos anos.
O embate durou segundos, talvez minutos. Gabriel cortou meu braço, eu disparei para o lado dele, errando de propósito. Se tivéssemos continuado…
Um de nós teria morrido ali. Se matado... Eu não queria... Me desculpa... Você é meu irmão...
Mas então, os monitores explodiram.
A ilusão se rompeu.
Ivan e Clarabella desapareceram num piscar de olhos.
E ali, flutuando no canto da loja, estava ele.
O Memoflígico.
Seu corpo translúcido se retorcia como um reflexo num vidro trêmulo. Sua pele parecia pulsar com energia, e seus olhos verdes brilharam em pânico ao perceber que havíamos saído do transe.
E então, ele tentou fugir.
Mas nós não deixamos.

Eu e Gabriel agimos como um só.
Sabíamos o que fazer. O Memoflígico não podia existir sem um meio de transmissão.
Jogamos todos os eletrônicos ainda ativos para a mesma sala, forçando-o a um único ponto de conexão.
Ele tentou escapar, tentou buscar outra ilusão, mas nós já sabíamos que era falso.
E então, Gabriel atacou.
A lâmina rasgou o espaço onde ele flutuava, e no mesmo instante eu destruí os últimos aparelhos restantes.
A criatura gritou, seu corpo tremendo, os olhos piscando freneticamente em pânico absoluto.
Ele se contorceu.
E então, sumiu para sempre.

Me desculpa por tudo que aconteceu nessa missão Gabriel. Você é meu irmão. Eu te salvei aquele dia, e em todas as nossas missões, eu sempre vou te salvar. Eu ainda estou aqui.


Relato de Alheio: Fummu

Registro de Leônidas Lakota

Elemento: Energia
Porte: Médio.
Sentidos: Altamente perceptivo, detecta mudanças no ambiente e padrões mentais.
Resistência: Alta contra Energia—dificilmente é manipulado ou enganado.
Fraqueza: Conhecimento.
Físico: Possui alta mobilidade, sendo capaz de se teleportar curtas distâncias e evitar detecção. Sua estrutura magra e flexível permite movimentos ágeis, enquanto sua inteligência é extremamente avançada, sendo capaz de prever reações e manipular alvos. Sua resistência física é baixa, mas sua invisibilidade natural compensa essa fraqueza.

Padrão de Ameaça: Camuflado e meticuloso, não ataca imediatamente, preferindo estudar suas vítimas e testar suas reações. Usa sua invisibilidade para se aproximar sem ser detectado e manipula o ambiente a seu favor. Alimenta chamas e pode causar explosões em substâncias inflamáveis, tornando qualquer tentativa de combate direto extremamente perigosa. Raramente luta por instinto—ele apenas ataca quando decide que aprendeu o suficiente.

Dedicatória:
As marcas não eram naturais.
De longe, pareciam apenas queimaduras no solo, faixas de grama seca entre os muros de concreto do da estação abandonada. Mas quando nos aproximamos, notamos o cheiro.
Não era apenas um cheiro de queimado comum. Era enxofre misturado a algo químico, um odor sintético que me lembrou do cheiro de aparelhos eletrônicos queimando. Gabriel também sentiu. Ele não falou nada, apenas me lançou um olhar.
Estávamos sendo observados.
Mas não conseguíamos ver quem nos observava.

O Chamado e as Primeiras Descobertas

Fomos chamados até a estação por um antigo contato nosso, um segurança que fazia rondas noturnas em um prédio industrial abandonado. Ele mencionou que estranhos eventos começaram a acontecer, mas os relatos eram vagos. Luzes piscando, equipamentos quebrando sozinhos e, em uma das noites, ele disse que viu um vulto, mas não conseguiu enxergar o que era.
Achamos que poderia ser uma manifestação tradicional de Energia. Alguma entidade residual presa ao ambiente. Mas conforme caminhávamos pelo complexo, percebemos os sinais.
Havia algo ali.
As paredes estavam cobertas de impressões digitais alongadas, como se alguém tivesse pressionado as mãos contra o concreto repetidas vezes. Mas os padrões eram errados. As marcas tinham mais do que cinco dedos.
As plantas próximas ao prédio estavam todas queimadas, ressecadas, como se algo tivesse drenado toda a umidade do solo. Mas não havia marcas de incêndio, nem qualquer evidência de fogo convencional.
E o cheiro.
O cheiro estava por toda parte.

O Primeiro Contato

O prédio de estação era um labirinto de corredores sujos e salas abandonadas. O silêncio ali dentro era estranho—nenhum som externo parecia entrar no ambiente, como se o próprio local estivesse isolado do mundo.
Foi então que as luzes começaram a piscar.
Não havia energia no prédio, os fios estavam cortados há anos. Mas os sensores de movimento nos refletores externos se ativaram sozinhos, lançando flashes de luz em momentos aleatórios. O corredor à nossa frente se iluminava e mergulhava na escuridão em intervalos desconexos.
E então, ouvimos o primeiro som.
Uma respiração profunda, mecânica, como se alguém estivesse inalando por um tubo longo. E naquele momento, percebi.
Não era que não conseguíamos ver a criatura.
Ela estava ali o tempo todo. Apenas invisível.
E então, o som sumiu.
E no segundo seguinte, o ambiente inteiro explodiu em caos.


O Ataque do Fummu

As portas ao nosso redor bateram com violência, o chão tremeu levemente, e algo se moveu rápido demais na escuridão. Não podíamos vê-lo, mas sabíamos que estava próximo.
Gabriel sacou a lâmina, mantendo a postura defensiva. Eu já tinha minhas armas prontas, mas sem um alvo não havia nada que pudéssemos fazer.
Foi então que o cheiro se intensificou.
E, de repente, o corredor ficou quente. Algo havia incendiado o oxigênio ao nosso redor.

Fogo e fumaça.
Era isso que precisávamos. Se a coisa estava camuflada, talvez conseguíssemos revelar sua forma usando gás ou fumaça para delineá-la. Gabriel entendeu meu raciocínio imediatamente, e puxou uma das granadas de fumaça que carregava.
Ele ativou e jogou no chão.
E foi naquele instante que o vimos pela primeira vez.
O corpo do Fummu se revelou no meio da névoa—um humanoide alto e magro, pele cinza, curvado, olhos verdes brilhantes, e uma mangueira grotesca conectando sua boca ao peito. O gás esverdeado escapava de aberturas ao redor de seu corpo.
E então, ele olhou para nós. Parecia SORRIR? Não, ele não tem boca, mas seria o que ele faria se pudesse. 

A Retirada Forçada

A fumaça nos deu apenas uma fração de segundo para reagir.
Antes que pudéssemos atacar, o ambiente explodiu. O Fummu alimentou as chamas do gás, e o que antes era uma cortina de fumaça virou um clarão ardente, lançando ondas de calor que quase nos consumiram.
Tudo o que conseguimos fazer foi fugir dali o mais rápido possível. Ele não nos perseguiu.
Não precisou.
Ele já sabia que havia vencido aquele encontro.

O Primeiro Alheio Camuflado

Depois daquela noite, ficamos dias analisando o que aconteceu. O Fummu não era apenas um predador—ele era um estudioso, um observador. Ele nos permitiu vê-lo por um instante, mas não foi um erro.
Ele quis que víssemos.
Como se estivesse testando nossa reação. Mas se ele nos deixou viver, significa que encontrou algo mais interessante para estudar.
E isso significa que ele ainda está à espreita, observando.

[CONTINUAR PESQUISA E MATAR ALHEIO]

Relato de Alheio: Interflorado

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Conhecimento
Porte: Pequeno (antes de se alojar) / Médio (quando aflora).
Sentidos: Percebe padrões mentais e variações cognitivas, mas não possui visão tradicional.
Resistência: Conhecimento.
Fraqueza: Sangue.
Físico: Extremamente ágil quando fora do hospedeiro, movendo-se rapidamente para encontrar um novo corpo. Frágil sozinho, mas difícil de atingir quando alojado no cérebro. Altamente inteligente, entende padrões mentais e manipula seu hospedeiro para evitar ser detectado.

Padrão de Ameaça: Parasítico e paciente, infiltra-se em hospedeiros sem levantar suspeitas e altera seus sentidos gradualmente. Evita confronto direto, mas aflora instantaneamente se ameaçado, matando o hospedeiro no processo e atacando em seguida. Ao fim do ciclo, transforma a vítima em uma casca vazia cheia de ovos antes de buscar outro alvo.

Dedicatória:
O chamado nos levou a uma fazenda isolada nos arredores de Colares. Inicialmente, parecia apenas um caso estranho, mas nada além do que já havíamos lidado antes. Agroglifos haviam surgido nos campos, desenhos geométricos impossíveis de terem sido feitos por mãos humanas. A maioria das pessoas associava aquilo a fenômenos atmosféricos ou brincadeiras elaboradas. Mas a esposa do fazendeiro, desesperada, nos contou algo diferente.

Seu marido estava mudado.
Não havia desaparecido, nem estava morto. Mas ele não era mais o mesmo.
Nos três dias que passamos na fazenda, aprendemos que não estávamos lidando com nada que conhecíamos antes. Isso sendo abrigados por eles em um quarto reserva.

O Início da Investigação

A primeira coisa que fizemos foi observar. O fazendeiro ainda mantinha sua rotina, mas algo em seus movimentos não parecia natural. Ele estava um pouco mais lento, como se sua mente estivesse atrasada em relação ao próprio corpo. Às vezes, suas mãos hesitavam ao segurar objetos, como se precisasse de um segundo extra para lembrar o que estava fazendo.
A esposa mencionou que ele vinha reclamando de problemas na visão, dizendo que as cores pareciam “apagadas” ou “distorcidas”. Quando testamos, pedimos para ele nomear as cores de alguns objetos da casa. Ele errou todas.
O próximo sintoma foi mais perturbador.
Durante um almoço, ele cortou o dedo ao preparar a comida. Uma ferida pequena, mas o que nos chocou foi o sangue que escorreu.
Verde.
Denso, viscoso, borbulhando levemente ao entrar em contato com o ar. Quando caiu no chão de madeira, fez um pequeno chiado, como se estivesse corroendo a superfície.
Gabriel e eu trocamos olhares. Aquilo não era normal. (Não comemos a comida)

O Medo do Calor e do Frio

A evidência final veio por acaso.
No final da tarde, estávamos perto do celeiro quando a esposa acendeu o fogão a lenha para cozinhar. No instante em que a chama crepitou, o fazendeiro recuou involuntariamente. Não foi um movimento consciente. Ele deu um passo para trás e desviou o olhar.
Mais tarde, testamos de novo.
Durante a noite, quando a temperatura caiu, deixamos propositalmente um copo de água gelada na frente dele. Dessa vez, ele evitou tocar no copo, apenas segurando a borda com a ponta dos dedos.
Aquele comportamento se repetiu mais algumas vezes ao longo da investigação. Qualquer variação extrema de temperatura parecia deixá-lo desconfortável, inquieto. Mas o medo do calor era o mais evidente.
Foi assim que percebemos: o que quer que estivesse dentro dele não reagia bem a mudanças bruscas de temperatura.
E se aquilo não suportava variações térmicas, então talvez pudéssemos forçá-lo a sair.

O Plano para Extrair o Interflorado

Nossa maior dificuldade era fazer isso sem alertar a criatura. Não sabíamos o que aconteceria se ele percebesse nossa intenção—mas sabíamos que, se esperássemos demais, o aflorar aconteceria.
E quando isso acontecesse, o fazendeiro provavelmente morreria.
Precisávamos agir antes que chegasse nesse ponto.
Nosso plano foi simples, mas calculado. Criamos uma armadilha usando a própria hesitação dele contra ele.
Preparamos dois barris no estábulo. Um cheio de água extremamente gelada, trazida do poço durante a noite, e outro que aquecemos usando brasas do fogão a lenha. Chamamos o fazendeiro para ajudar com um “trabalho de rotina”—transportar a água para um bebedouro de animais. Se nossa teoria estivesse certa, ele hesitaria ao tocar na água.
Foi exatamente o que aconteceu.
Assim que mergulhou a mão no barril gelado, seu corpo inteiro travou.
Ele ficou paralisado por um instante, e então deu um passo para trás, como se tivesse recebido um choque. Gabriel o chamou para pegar um balde de água quente. Ele hesitou ainda mais.
Então, o som começou.

O Encontro com o Interflorado

Foi diferente de tudo que já ouvimos antes. Não era um grito.
Era uma frequência.
Algo agudo, reverberando em nossos ossos, se infiltrando em nossas mentes como uma onda invisível. O fazendeiro segurou a cabeça, o rosto contorcido em dor. O que estava dentro dele percebeu.
Seu corpo se enrijeceu, a respiração ficou irregular. As veias começaram a se contorcer sob a pele. Ele estava entrando em colapso.
Se não fizéssemos algo, o aflorar aconteceria ali mesmo.
Sem perder tempo, Gabriel agarrou o fazendeiro e, com toda a força, mergulhou-o na água gelada. O choque térmico atingiu seu corpo inteiro de uma só vez.
O grito que ecoou não foi dele.
Foi algo vindo de dentro dele.

A coisa saiu pela boca lentamente, os membros se desenrolando como raízes vivas. Duas mãos entrelaçadas, cada uma coberta de olhos que piscavam sem padrão. A cauda longa se moveu como se procurasse um novo hospedeiro.
O som aumentou. Agora, era uma sequência de ruídos desconexos, uma voz que tentava se comunicar em uma linguagem impossível.
Mas o Interflorado estava vulnerável.
Ele havia saído do hospedeiro antes do tempo esperado, ainda fraco e exposto. Gabriel agiu rápido, separando a criatura de vez com sua lâmina. O corpo do Interflorado se dissolveu em um líquido opaco, escorrendo pela madeira do estábulo.
O fazendeiro desmaiou. Mas estava vivo.
E pela primeira vez, vimos com nossos próprios olhos algo que não pertencia nem ao Outro Lado, nem à Realidade. EU SABIA EU SABIA QUE ELES EXISTIAM, EU SABIA, SÃO ALIENS, OU MELHOR, ALHEIOS. E ELES VEEM DO OUTRO LADO, EU ENTREI NO MUNDO CERTO.

O Primeiro Alheio

Depois desse encontro, passamos semanas tentando entender o que havíamos acabado de encontrar. O Interflorado não era como nada que já havíamos visto antes. Ele não veio do Sangue, nem da Morte, nem da Energia.
E então, conforme estudamos suas origens, encontramos outros nomes.
E a pior pergunta ainda não foi respondida:

O que eles querem? De onde vêm?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Relato de Campo: Profundo

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Difícil de discernir, diria que é Energia.
Porte: Enorme.
Sentidos: IMPOSSÍVEIS.
Resistência: Entender é a pior parte.
Fraqueza: Provavelmente Conhecimento.
Físico: (-NULO-) (Provavelmente muito forte ágil, principalmente na água)

Padrão de Ameaça: Não mergulhe até o abismo dentro da água, e não siga a luz vermelha.

Dedicatória:
O medo do oceano é um instinto primitivo.
Desde os primeiros humanos que pisaram na costa, nós tememos o que se esconde abaixo da superfície. O mar é vasto demais, escuro demais, desconhecido demais. Criaturas que nunca vimos, lugares que nunca exploramos, profundezas que sequer podemos alcançar sem sermos esmagados pela própria pressão da água. Nós não pertencemos ao fundo do oceano.
Mas algo pertence.
Algo que sempre esteve lá.
Algo que nunca quis ser encontrado.

A investigação nos levou aos arquipélagos de Colares
O caso começou como qualquer outro: desaparecimentos no mar. Mergulhadores experientes, gente treinada para suportar as condições extremas das profundezas, gente que sabia exatamente quais eram os perigos de seu trabalho. Ainda assim, sumiam sem explicação.
Não havia destroços de equipamento. Não havia corpos.
Só havia um rastro em comum: um brilho vermelho nas profundezas, a última coisa que suas vítimas viam antes do fim.

Começamos pelos relatos.
Mergulhadores sobreviventes falavam de algo estranho no fundo do oceano, algo que se movia diferente de qualquer criatura conhecida. No início, achavam que era uma espécie rara de lula, talvez uma Magnapinna, com seus longos tentáculos flutuando no vazio.
Mas a ilusão nunca durava. O instinto logo alertava que aquilo não era natural.
"A forma translúcida se arrastava entre as rochas e recifes sem tocar o solo, seus movimentos impossíveis, angulares, como se a própria água não a afetasse."
"Então, vinham os sons."
"Não eram ruídos comuns do oceano."
"Eram gritos."
Gritos vindos de todos os lados, mas impossíveis de rastrear. Vozes humanas misturadas à pressão do fundo do mar, implorando, chorando, sussurrando.
E então, a luz vermelha.
No instante seguinte, tudo desaparecia.

A Ordem Santoro tinha alguns registros do fenômeno. Uma potencial criatura, que foi arquivada e descartada, talvez seja isso que estamos atrás.
Imagens capturadas por drones subaquáticos mostravam silhuetas alongadas e translúcidas se movendo nos limites da visibilidade. A pele esverdeada e gelatinosa das criaturas brilhava fracamente, seu interior repleto de um sistema nervoso bioluminescente, pulsando com um tom vermelho incômodo.
Cálculos que fiz indicavam que, embora seus corpos principais tivessem cerca de dois metros de altura, seus membros extremamente finos podiam alcançar até oito metros de comprimento.
O mais perturbador era o que acontecia antes do ataque.
A pele translúcida se expandia, como se se dividisse em inúmeras camadas maleáveis. E no instante final, a bioluminescência aumentava, revelando fileiras incontáveis de pequenos dentes pontiagudos escondidos dentro da criatura.
O ataque era instantâneo. O Profundo dilacerava suas vítimas, despedaçando carne e ossos antes que pudessem reagir
Mas o mais assustador não era isso. Era o que vinha depois.
Não sobrava nada...
Os corpos não afundavam, não boiavam para a superfície. Nenhum rastro de tecido, nenhum fragmento de equipamento, nenhum vestígio da existência da vítima. Apenas uma mancha vermelha dissolvendo-se no escuro.

A pista mais valiosa que encontramos foi uma transmissão recuperada de um mergulhador desaparecido.
Foi o último contato registrado antes de sua potencial morte.
"Base, atingindo profundidade de 680 metros. Pressão atual de 68 atmosferas absolutas. Temperatura, 4 graus Celsius. Movimento detectado nas proximidades, possível forma de vida. Ela parece bioluminescente. É uma... lula? Negativo, organismo não identificado. Se movendo de maneira acelerada e irregular. Que... Eu nunca vi algo se mover... assim. Checando sistema de gases para neutralização de narcose por nitrogênio... tudo está funcionando. A criatura... A criatura está se aproximando! Ativando propulsores de... O que é... A luz está...? Base, abortar missão! Abortar missão! A LUZ TÁ CHEGANDO! ALGUÉM ME TIRA DAQUI! BASE!
POR FAVO—[ruído ininteligível]."

O silêncio que veio depois foi definitivo. A equipe de resgate nunca encontrou nada.

Passamos semanas nos arquipélagos tentando rastrear algo além das histórias.
Alugamos barcos, mergulhamos, investigamos ilhas inabitadas e formações subaquáticas que não estavam nos mapas. Seguimos relatos de pescadores que viram sombras se movendo sob seus barcos, de cientistas que perderam equipamentos de monitoramento profundo sem nenhuma explicação.
Nunca encontramos nada. Mas o medo estava lá. 

Em uma das noites, enquanto estávamos no barco analisando gravações sonares, ouvimos um som vindo das águas.
Um estalo seco.
Depois, outro.
Gabriel olhou para mim. Nenhum de nós se mexeu.
O terceiro estalo veio mais perto. Algo havia agarrado o barco.
E então, os gritos.
Idênticos aos que ouvimos nas gravações.
O mesmo tom de pavor, o mesmo desespero. Vozes humanas, mas sem origem.
Levei a lanterna até a água. Nada. Nenhum rastro. Nenhuma movimentação. Apenas o escuro absoluto do oceano olhando de volta... Tarde demais.
Desligamos tudo naquela noite.
Fizemos vigília até o amanhecer, mas não falamos mais sobre isso.

Nunca vimos o Profundo. Mas sabemos que ele está lá.
Na ausência de corpos. Nos gritos presos dentro da água. Nas manchas vermelhas que não deveriam existir.
Esperando.    Olhando.    
Chamando quem tiver coragem o suficiente para mergulhar fundo demais.

Que as profundezas nunca me chamem – e que a luz vermelha nunca brilhe para mim.

Relato de Campo: Mescla

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Sangue
Porte: Grande
Sentidos: Horríveis, mas alta reação.
Resistência: Apresenta resistência corporal à cortes, balas e perfurações.
Fraqueza: Sangue, calor e frio.
Físico: Incrivelmente forte e ágil; Moderadamente resistente; Basicamente inteligente.
            Movimentação superior que a humanoide ao escalar paredes e tetos.
            Movimento de voo, equiparado a movimentação humana.

Padrão de Ameaça: Seu padrão é nojento, além dos vários "olhos" e visão de inseto, seus fluidos corporais são corrosivos e impossíveis de sentir o cheiro e não passar mal. Ataca com um padrão de garras longas e afiadas e cuspir veneno. Tem uma camuflagem natural ou seja, sempre fique esperto, vai utilizar seus braços longos pra agarrar e vomitar em você. Caso lhe agarre, vai lhe perfurar com o ferrão fino e incubar ovos em você. E estranhamente lhe infectar com uma doença que vai lhe deixar lerdo, vendo alucinações, confuso, fraco e descoordenado.

Dedicatória:
Algumas coisas simplesmente não deveriam acontecer.
A Mescla não foi um acidente. Ela foi uma escolha—uma consequência de alguém que acreditava que a natureza escondia um segredo que a humanidade ainda não compreendia. Alguém que se entregou completamente à ideia de que insetos e parasitas tinham a chave para a verdadeira evolução.
O problema é que o Sangue ouviu. E atendeu ao chamado.
A Mescla é o fim inevitável dessa busca insana. Um corpo que não pertence mais ao humano que um dia existiu, mas sim à colônia de parasitas que o consome de dentro para fora.
E nós a encontramos.

A missão nos levou a um complexo abandonado onde algo estava crescendo e pior, onde civis desabrigados, mantinham suas vidas.
As primeiras pistas foram os corpos
Um dos civis estava completamente deformado, a carne transbordando de feridas pulsantes que se moviam como se algo rastejasse dentro delas. Seu rosto não era mais um rosto—era um ninho, um buraco de onde larvas gigantescas escorriam para o chão.
O segundo ainda estava consciente.
Ele segurava o próprio abdômen, a respiração errática, o olhar vidrado no nada. O suor escorria pela testa, e sua pele já começava a se tornar acinzentada e manchada por veias negras. Mas o pior eram os ovosDava para ver as pequenas massas escuras sob a pele de seu pescoço e braços, se mexendo. 
A Doença da MesclaEstava avançada demais. Não podíamos salvá-lo.
E então, ela apareceu.

O cheiro foi a primeira coisa que sentimos.
Era uma podridão viva, o fedor da carne que não sabe se está apodrecendo ou crescendo. Gabriel e eu cobrimos o rosto, mas não fez diferença. O cheiro penetrava tudo.
Ela emergiu rastejando pelas paredes, um pesadelo retorcido de carne e carapaça, seus braços alongados e finos se movendo como patas de um inseto gigante. A pele era uma fusão de músculo exposto e quitina dura, e os buracos onde deveriam estar seus olhos eram habitados por larvas, criaturas asquerosas que escorriam de dentro de seu crânio como se sua cabeça fosse um casulo em decomposição.
Mas não foi só isso.
Ela vomitou um jato de fluido esverdeado e borbulhante atingiu um dos civis antes que pudéssemos reagir.
O ácido destruiu a carne em segundos. Os gritos duraram pouco. O corpo do homem derreteu até os ossos, e onde ele caiu, só restou um buraco queimado no concreto.
Gabriel não esperou. Avançou.
A Mescla se moveu rápido, descendo a parede em um movimento fluído, impossível, como uma centopeia escalando um tronco. Antes que eu pudesse reagir, agarrou outro civil.
As garras se cravaram na carne. Os parasitas dentro dela se agitaram. E então, ela colocou os ovos.
A vítima gritou, contorcendo-se no chão. As veias começaram a escurecer quase de imediato.
Ele não duraria muito tempo.
Atiramos, cortamos, tentamos tudo.
Mas a criatura parecia resistir a tudo. Cada ferida aberta expelia um enxame de insetos minúsculos, cada um carregando pedaços do que ela era, reconstruindo sua forma.
Foi aí que entendi.
Eu peguei um galão de combustível e arremessei aos pés dela, Gabriel usou minha arma para dar o tiro, alimentando o próprio parasita contra ele mesmo. O corpo da Mescla entrou em colapso. As feridas queimaram de dentro para fora, e os insetos tentaram fugir.
Mas Gabriel não deixou. Com um corte preciso, separou a cabeça da criatura do corpo.
Dessa vez, ela não regenerou.
Mas o horror não acabou ali.
O civil que ela havia infectado começou a se contorcer. Sua pele esticou, rasgando em pontos diferentes. Algo dentro dele se mexeu. 
E então, ele parou.
Silêncio.



Até que um novo braço rasgou sua pele.
Outra Mescla eclodiu de dentro dele.
Mas nós já sabíamos o que fazer.

A Mescla não é uma criatura. Ela é uma praga. 
Ela não precisa de apenas um corpo. Precisa de muitos.
Ela não precisa atacar para matar. Ela apenas precisa de tempo.
E o Sangue sempre arranja um jeito de sobreviver.

Que o Sangue nunca me escolha – e que minha carne permaneça minha.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Relato de Campo: Ceifador Espiral

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Definitivamente Morte
Porte: Impossível discernir 
Sentidos: IMPOSSÍVEL.
Resistência: Impossível de se entender.
Fraqueza: Provavelmente Energia
Físico: (-NULO-)

Padrão de Ameaça: Em uma experiência de quase morte, você verá o rosto da morte.

Dedicatória:
Você já enxergou o rosto da Morte?
Aqueles que sobreviveram a experiências de quase morte descrevem ver flashes da própria vida, como se cada momento importante passasse diante de seus olhos. Mas alguns relatos vão além. Alguns dizem que, por um instante, viram algo olhando de volta.
No início, parecia apenas uma sequência de memórias. Mas então, tudo começou a se distorcer. As lembranças perderam sua linearidade, retorcendo-se sobre si mesmas. A linha do tempo se transformou em um movimento espiralado, girando, colapsando, se desfazendo. E no centro dessa espiral, algo se revelava.
Uma silhueta devorando cada momento.
Os poucos que sobreviveram a essa visão descreveram um sentimento absoluto de ruína. Eles não estavam apenas morrendo—estavam sendo consumidos por algo muito maior do que a morte.
Chamaremos essa entidade de Ceifador Espiral.

Não há relatos diretos de sua manifestação na Realidade. Não há registros físicos que possamos estudar. Nada sobre essa criatura pode ser comprovado, porque sempre que ela aparece, tudo desaparece.
O que existe são rastros vagos.
Ruínas perdidas no meio do deserto, onde nada cresce e nada sobrevive. Estruturas que deveriam ter resistido ao tempo, mas que foram reduzidas a cinzas e Lodo seco, como se a própria Morte tivesse engolido aquele espaço e cuspido apenas o resquício do que um dia existiu.
Os poucos fragmentos escritos sobre o Ceifador Espiral foram encontrados em regiões desoladas, em lugares que não deveriam estar vazios. Cidades fantasmas que não foram abandonadas—foram apagadas.
Os textos, quando existem, falam de uma presença impossível, algo que não pode ser olhado diretamente, mas que se esconde dentro da espiral do tempo.
E todos esses documentos compartilham algo em comum: nenhum está completo.
As palavras foram queimadas, corroídas, transformadas em pó. Como se o simples ato de descrever a criatura fosse suficiente para chamar sua atenção.

Se o Ceifador Espiral já se manifestou alguma vez na Realidade, ninguém sobreviveu para contar.
E, talvez, seja melhor assim.
Porque se a Morte tem um rosto, então um dia, todos nós veremos.
E quando esse dia chegar… não haverá nada além de cinzas.

Relato de Campo: Uivar

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Provavelmente Energia (Mexe com clima)
Porte: Impossível discernir 
Sentidos: Muito Aguçados.
Resistência: Impossível causar qualquer tipo de dano. (NÃO EXISTE MAS ESTÁ LÁ)
Fraqueza: Provavelmente Conhecimento
Físico: (-NULO-)

Padrão de Ameaça: Se você ver uma nevasca onde não deveria, aguente e sobreviva, ela não vai acabar.

Dedicatória:
O frio não deveria ser tão intenso. Não ali.
O Uivar não é apenas uma criatura. Nem mesmo uma entidade no sentido convencional. Alguns o chamam de anomalia climática paranormal, algo que não pode ser contido, apenas resistido. Outros acreditam que há algo consciente dentro da nevasca, algo que se move, que escolhe suas vítimas, que se alimenta delas.
Não importa qual seja a verdade. O que importa é que, quando o Uivar chega, tudo congela.

A missão nos levou a uma ilha pequena, parte de um arquipélago distante da costa. Pescadores relatavam um frio anormal na região, muito além do que qualquer corrente marítima poderia explicar. Mais estranho ainda, um pescador e seu filho haviam desaparecido sem deixar rastros.
Ao chegarmos, o silêncio nos recebeu primeiro. O som do mar estava errado—baixo demais, como se o próprio oceano estivesse segurando a respiração. Mas o frio foi o que mais incomodou.
Era um tipo de frio que não vinha apenas da temperatura. Era algo que parecia drenar o calor do próprio corpo, sugando-o de dentro para fora.
Logo encontramos os primeiros sinais. Animais congelados em poses naturais, como se tivessem sido interrompidos no meio de um movimento e esculpidos em gelo sólido. As árvores estavam cobertas por uma camada fina e brilhante de geada. Cada passo que dávamos soava abafado, como se até o som estivesse sendo congelado no ar.
E então os vimos.
O pescador e seu filho estavam lá, no meio da ilha, abraçados um ao outro, congelados como estátuas.
Suas expressões eram estranhamente calmas. Como se tivessem aceitado o que aconteceu antes de serem consumidos.

Foi quando ouvimos.
O vento começou a uivar.
Não era um som normal. Não era apenas a corrente de ar cortando a paisagem. O som tinha camadas—vozes mescladas, fragmentos de gritos presos dentro da tempestade. E, entre eles, um clique constante, seco e acelerado, que ressoava em intervalos precisos.
A neve começou a cair, mas algo estava errado. Os flocos não seguiam o vento. Eles desviavam, formando redemoinhos estranhos no ar, contornando uma silhueta invisível que parecia se mover dentro da nevasca.
Gabriel segurou a katana com força. Eu já tinha a arma em mãos, mas não havia nada para mirar.
Não podíamos ver o que estava ali. Mas sabíamos que estava.
O frio ficou insuportável. Meus músculos começaram a endurecer. O ar ficou denso, difícil de respirar. A ilha inteira estava sendo apagada pelo Uivar.
Não houve batalha. Não havia como lutar contra isso.
Nosso único objetivo era sobreviver.
Corríamos sem destino, tentando nos afastar do epicentro da nevasca. Mas ela nos seguia, mudava de direção conosco. Ela nos queria ali.
Não sei quanto tempo durou. Mas, em algum momento, o som começou a diminuir. O frio cedeu levemente. O Uivar se afastou.
E nós conseguimos escapar.

Sobreviver não foi o suficiente.
Sem outra escolha, semanas depois, apagamos a ilha do mapa.
O fogo consumiu tudo. Nenhum rastro foi deixado. Nenhum sinal de que algo alguma vez esteve ali.
Foi o único jeito.
Porque, se aquela ilha continuasse existindo… o Uivar voltaria.
E, da próxima vez, ele não deixaria ninguém escapar.

Que a Energia nunca me tome – e que o frio nunca me chame pelo nome.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Relato de Campo: Sepultado

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Morte
Porte: Médio
Sentidos: Horríveis.
Resistência: Apresenta resistência corporal à cortes, impactos, balas e perfurações.
Fraqueza: Sangue
Físico: Incrivelmente forte e resistente; Basicamente ágil; Horrivelmente burro.
            Movimentação superior que a humanoide.

Padrão de Ameaça: Seu padrão é horrendo, ele sempre tenta ser parte do cenário, ao chegar perto o suficiente tenta agarrar e dar o toque mortal e bater de maneira muito desesperadas e cuidado para ele não te puxar pra dentro do sarcófago.

Dedicatória:
Existem sons que marcam a memória para sempre. O Sepultado tem o pior deles.
É um som grave, ritmado, incessante. Como um tambor distante, ecoando no silêncio absoluto de um cemitério ou no vazio de uma catacumba esquecida. Sempre vindo de dentro.
Quando alguém ouve esse som pela primeira vez, tende a ignorá-lo. Talvez seja um efeito da acústica do local, o eco de algo do lado de fora. Mas, conforme os minutos passam, fica impossível ignorar. As batidas vêm do interior dos túmulos.
Não é difícil imaginar como esse som começou. Cordas vocais se romperam após tantos gritos inúteis, transformando a agonia em socos desesperados contra o interior do caixão. O som da esperança morrendo e da loucura tomando conta. O som que nunca deveria ser ouvido por ninguém.
Encontramos um desses nas catacumbas de uma ilha próxima a Colares.

A missão era simples. Pelo menos, no papel.

Não é difícil imaginar como esse som começou. Cordas vocais se romperam após tantos gritos inúteis, transformando a agonia em socos desesperados contra o interior do caixão. O som da esperança morrendo e da loucura tomando conta. O som que nunca deveria ser ouvido por ninguém.
Encontramos um desses nas catacumbas de uma ilha próxima a Colares.

A missão era simples. Pelo menos, no papel.
O governo local suspeitava que as catacumbas escondiam algo antigo. Exploradores e saqueadores desapareceram ali dentro sem deixar rastros. Aqueles que conseguiram voltar falavam sobre túmulos que se mexiam, sobre um som abafado que nunca parava, e sobre correntes que eram arrancadas por mãos invisíveis.
Sabíamos que se tratava de algo do Outro Lado. Mas não esperávamos que fosse aquilo.
O túnel era claustrofóbico. O ar, seco e pesado. O cheiro da umidade misturada com pedra e terra revolvida indicava que aquelas passagens eram usadas há séculos.
Então, ouvimos a primeira batida.
Baixa. Distante. Mas definitiva.
A segunda veio logo depois. Depois, outra. O som formava um ritmo constante, uma percussão abafada vinda das paredes.
Gabriel olhou para mim, mão na katana.
Isso não é um eco.
Tínhamos certeza.

Seguimos o som. Ele nos levou até uma sala maior, onde um sarcófago antigo e corroído pelo tempo estava no centro, suas rachaduras decoradas com espirais esculpidas e pedras preciosas acinzentadas. As batidas agora eram ensurdecedoras.
Antes que pudéssemos reagir, algo saiu pelas rachaduras do túmulo.
Primeiro, foram os dedos—longos, ósseos, dobrando-se de maneira impossível. Depois, um braço inteiro, coberto de pele seca e retorcida, um cadáver que nunca teve o direito de descansar. Mas não era só um corpo. Havia mais.
O caixão se abriu por dentro. Vários corpos, fundidos em uma só aberração, se arrastaram para fora ao mesmo tempo. Alguns estavam fundidos pelas costelas, outros tinham mãos saindo de onde deveriam ser os ombros, como se algo os tivesse costurado através da Morte.
A criatura se moveu rápido.
O som das batidas agora vinha de dentro dela, como se ainda tentasse bater contra um túmulo que não existia mais. Quando avançou, percebemos o verdadeiro perigo—ela tentava nos arrastar para dentro do sarcófago.
Meus tiros não adiantaram. As balas atravessavam o corpo seco e apodrecido sem desacelerar. Gabriel a manteve afastada, seus golpes cortando membros, mas cada vez que um pedaço da criatura caía, o resto do corpo continuava avançando, puxando-se para frente como uma marionete quebrada.
Nós não podíamos matá-la ali.
As correntes! — gritei. Precisávamos prendê-la novamente.
As mesmas correntes que antes lacravam o túmulo estavam espalhadas pelo chão. Gabriel e eu corremos, usando o próprio peso da criatura contra ela. Enquanto eu distraía o Sepultado, Gabriel agarrou as correntes e as jogou sobre o monstro, puxando com força.
A coisa rugiu. O som das batidas cresceu em desespero. Mas, quando a última corrente foi selada ao redor do sarcófago, o som finalmente parou.
A criatura ficou imóvel.
O silêncio naquela catacumba foi pior do que qualquer grito.

O Sepultado não pode ser destruído—ele só pode ser selado novamente. Se libertado, tentará arrastar outros para seu túmulo, aumentando sua massa, fundindo novas vítimas ao seu ciclo de morte e desespero eterno.
Mas ele não pode sair do sarcófago sozinho. Se as correntes forem restauradas, se o selo for mantido intacto, ele permanecerá apenas um eco do que foi um dia. Mas quem sabe por quanto tempo?
E, mais importante… quantos outros ainda estão selados por aí, esperando que suas correntes se quebrem?

Que a Morte nunca me prenda – e que as batidas permaneçam abafadas.

Relato de Campo: Rastejador Sombrio

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Conhecimento
Elemento Secundário: Sangue
Porte: Médio
Sentidos: Ótima percepção aguçada.
Resistência: Apresenta resistência corporal à cortes, impactos e balas.
Fraqueza: Sangue
Físico: Extremamente ágil; Incrivelmente forte, resistente e inteligente.
            Movimentação superior que a humanoide.

Padrão de Ameaça: Seu padrão é furtivo, o que você precisa é de iluminação, sem luz, ele pode se rastejar pelas sombras, seus toques de dor ficam mais potentes e consegue usar seus tentáculos sombrios. Mas em geral é só isso.

Dedicatória:
Você já sentiu que estava sendo seguido?
Talvez ao andar sozinho em uma rua vazia, ou enquanto atravessava um corredor escuro, sem motivo aparente para olhar para trás, mas sentindo uma pressão incômoda na nuca? Talvez tenha sido só paranoia. Talvez tenha sido ele.
O Rastejador Sombrio é uma dessas entidades que parece existir apenas para brincar com a fragilidade da sanidade humana. Ele não persegue suas vítimas apenas para matá-las. Ele as observa, as testa, se diverte com a paranoia crescente até o momento certo para atacar. Ele quer que você saiba que ele está ali, mas nunca com certeza absoluta.
Sempre pelas sombras. Sempre no limite da visão.

A missão nos levou a um distrito industrial abandonado, o tipo de lugar onde o concreto rachado e as janelas quebradas pareciam contar histórias de décadas de abandono. Fomos até lá porque alguém que não deveria saber do paranormal falou demais.
Um policial local encontrou um corpo dentro de um depósito velho. Disse que o cadáver estava esticado, como se tivesse sido puxado para dentro do chão. Os membros estavam deformados, como se tivessem sido arrastados até o limite da resistência humana. Mas o pior detalhe foi a descrição final:
"Ele ainda tinha um sorriso no rosto."
O oficial estava convencido de que alguém havia feito aquilo com métodos humanos. Mas sabíamos que algo assim não era normal.

Chegamos ao depósito ao entardecer, e imediatamente senti o erro. O ambiente parecia certo demais para algo como isso existir. O sol já estava baixo, as sombras estavam longas demais, se espalhando pelos cantos como se soubessem que em breve teriam domínio total do espaço.
Seguimos investigando os arredores. As marcas no chão indicavam movimentos arrastados, mas sem pegadas para explicar como ou o quê fez aquilo. Nenhum rastro real. Nenhum sinal de luta. Apenas a prova de que algo puxou a vítima até que ela não fosse mais nada além de carne esticada e inutilizável.
Foi então que senti.
Um movimento no canto da visão.
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Virei rapidamente, arma em punho. Mas não havia nada ali.
Gabriel parou ao meu lado, mão na katana. Eu não precisei dizer nada. Ele também sentiu. A luz do sol continuava a morrer. As sombras cresciam. O ar parecia mais denso. E então, ele apareceu.

Primeiro, uma silhueta parada na entrada do galpão. Não se moveu. Não fez som. Apenas estava ali. Suas vestes pareciam humanas—a silhueta de um sobretudo longo e um chapéu cobrindo o rosto. Mas sabíamos que não era humano. Nenhum humano se mantém parado assim. Nenhum humano espera o momento certo para ser visto.
O tempo pareceu desacelerar. Mas a criatura não avançou. Ela esperou. E então, ela sumiu. Mas a presença não desapareceu.
Senti algo rastejando pelas bordas da sala, como se as sombras estivessem vivas. Tentáculos escuros se alongavam entre as paredes e o chão, fundindo-se à escuridão natural ao redor. Ele não precisava correr até nós. Ele precisava apenas nos cercar.
Gabriel foi o primeiro a agir. Ele arrancou uma lanterna da mochila e a acendeu. O feixe de luz cortou o espaço e a criatura reagiu.
O Rastejador Sombrio emergiu das sombras, finalmente revelando sua forma real. Seu rosto era uma boca grotesca, uma fenda escancarada cheia de dentes finos e irregulares, estendendo-se de um lado ao outro onde deveria haver olhos. Sua pele não tinha cor. Ele não tinha olhos. Apenas a ausência total de feições, como se fosse uma estátua distorcida de algo que tentou ser humano e falhou.
A luz o enfraquecia.
Ele tentou atacar, mas agora seus movimentos eram descoordenados. Irracionais. Ele precisava das sombras.
Gabriel não deu espaço. Ele avançou.
A lâmina de sua katana brilhou no mesmo instante em que eu disparei contra os pontos de sombra onde a criatura tentava se esconder. Cada fonte de escuridão que eliminávamos a deixava mais instável. A criatura tentou recuar, seus tentáculos se recolhendo como se quisesse fugir. Mas não deixamos.

Gabriel desferiu um golpe final e cortou a silhueta em dois.
O corpo do Rastejador Sombrio despedaçou-se como fumaça se dissipando. As sombras no galpão encolheram, e a temperatura do ambiente finalmente voltou ao normal.
Ele estava morto.

O Rastejador Sombrio é um predador calculista. Ele não avança de imediato. Ele espera. Ele se diverte. Mas ele tem uma fraqueza fatal: a luz.
Se privado da escuridão para se esconder, ele perde seu maior trunfo. Torna-se irracional. Desesperado. E é aí que ele pode ser eliminado.
Mas o que mais me incomoda não é que o matamos. O que me incomoda é saber há quanto tempo ele já estava ali, esperando que alguém entrasse no escuro para que pudesse finalmente atacar.

Que o Conhecimento não me faça esquecer – e que a sombra nunca me encontre desprevenido.

Relato de Campo: Anomalia

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Energia
Porte: Desconhecido
Sentidos: Impossível compreender.
Resistência: Não há jeito de entender.
Fraqueza: Provavelmente Conhecimento
Físico: Os estudos indicam que não parece ter corpo físico

Padrão de Ameaça: Não há padrão, é quase impossível encontrar.

Dedicatória:
Diferente de todas as outras entidades catalogadas, a Anomalia nunca foi vista.

Não existem testemunhas para descrevê-la. Nenhuma vítima lúcida que tenha sobrevivido para relatar sua experiência. Nenhum registro físico claro de sua manifestação. O que existe são apenas sinais.
Fragmentos de ondas de rádio cortadas no meio da transmissão. Sequências de código corrompidas aparecendo em sistemas que jamais estiveram conectados. Pessoas rindo incontrolavelmente em suas últimas interações antes do completo colapso mental.
Uma criatura como essa não segue padrões.

A teoria mais aceita entre os ocultistas diz que a Anomalia não é um lugar, nem uma brecha dimensional. Ela é um monstro.
Mas um monstro que a própria Realidade tenta esconder.
Seus encontros não seguem lógica, não obedecem a um ritual ou a um gatilho óbvio. Ela não precisa de invocação.
O que se sabe é que ela está esperando.

As poucas pistas encontradas sobre a Anomalia não surgem de testemunhas, mas de anomalias digitais e transmissões incompletas. Eu mesmo vi algumas dessas evidências enquanto estudava desaparecimentos inexplicáveis, principalmente em arquivos perdidos de investigações antigas. Em vários casos, rádios e computadores registraram sinais impossíveis no exato momento de cada sumiço.
Um exemplo aconteceu em 1996, quando uma operadora de rádio ouviu seu próprio nome ser sussurrado na transmissão antes que o sinal fosse cortado. O local onde trabalhava estava vazio. No dia seguinte, ela desapareceu sem deixar vestígios.
"A PRÓXIMA VEZ"
"EU ESTAVA ESPERANDO"
"ISSO NÃO É UM ERRO"
Ninguém nunca conseguiu rastrear a origem dessas mensagens. O programador que as encontrou foi encontrado dias depois, rindo histericamente, incapaz de formular uma frase coerente.

Não sabemos como a Anomalia escolhe sua vítima. Não sabemos se ela sempre esteve aqui, esperando sua oportunidade, ou se é uma manifestação instantânea, desaparecendo assim que se alimenta.
Mas há algo que todas essas histórias têm em comum: a impossibilidade.
Ela se manifesta quando não deveria ser possível. Quando um número ridiculamente pequeno de probabilidades se alinha de forma errada.
Como se, toda vez que alguém abrisse uma porta—seja a de um elevador, de casa, de um carro ou até mesmo de um micro-ondas—eles estivessem jogando na loteria contra o impossível.
E, se tiverem azar o suficiente, a Anomalia escolhe eles.

Se existe algo a se temer nela, não é a forma que nunca foi vista. Não é o som que nunca foi ouvido. Não é o toque que ninguém conseguiu descrever.
O verdadeiro terror da Anomalia é a ideia de que, na próxima vez que você abrir uma porta, pode ser você.

Relato de Campo: Enraizado

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Morte
Porte: Médio
Sentidos: Levemente aguçado.
Resistência: Apresenta resistência corporal à cortes, impactos e perfurações.
Fraqueza: Energia
Físico: Incrivelmente ágil, forte e resistente; Basicamente inteligente.
            Movimentação similar a humanoide.

Padrão de Ameaça: Seu padrão é perigoso, principalmente por conta do veneno, ataca somente com os braços pontiagudos como estacas de madeira, que injetam como seiva, o Lodo negro no alvo, cuidar imediatamente após acabar de verdade o combate, quando ele cair em pedaços continuar atacando, ele volta.

Dedicatória:
A Morte se espalha de formas que poucos conseguem compreender. Mas uma coisa é certa: ela gosta de se infiltrar onde a vida floresce.
Florestas antigas, ricas em biodiversidade, parecem ser especialmente vulneráveis à sua influência. O tempo passa, as raízes se estendem, os troncos engrossam, e entre os galhos, a podridão cresce junto. Às vezes, os cadáveres enterrados sob essa vegetação tornam-se parte do próprio solo. Mas outras vezes... eles voltam.
Chamei essas coisas de Enraizados.
São corpos que deveriam estar mortos há muito tempo, mas que foram corrompidos pelas raízes infestadas de Morte. O Lodo preenche os espaços entre os ossos e a carne apodrecida, endurecendo as fibras da madeira que os recobre, criando um esqueleto de armadura resistente, uma fusão grotesca de humano e natureza morta. Eles não se movem como mortos-vivos normais. Eles rastejam, estalam, rangem. Quando atacam, seus golpes são pesados como troncos caindo, cada movimento carregado pelo peso do tempo.

Eu e Gabriel encontramos um deles quando não deveríamos ter encontrado nada.
A missão nos levou até o coração da floresta, onde os sinais da Morte estavam por toda parte. Havíamos enfrentado alguns Esqueletos de Lodo antes de encontrar um ponto seguro para acampar. O solo ali estava úmido demais, afundando sob nossas botas, mas não encontramos nada que indicasse perigo imediato.
Deveríamos ter prestado mais atenção.
Durante a madrugada, o primeiro som veio do subsolo. Um ruído abafado, algo se mexendo dentro da terra. Gabriel foi o primeiro a se levantar, pegando a katana antes que qualquer um de nós conseguisse reagir direito. O chão começou a se partir.
A terra se abriu em fissuras estreitas e, no centro do acampamento, algo começou a emergir.
Primeiro, os dedos. Longos, quebradiços, enegrecidos pelo Lodo seco. Depois, o braço, onde raízes densas serpenteavam sobre os ossos expostos, formando uma carapaça resistente. Ele se ergueu aos poucos, desenterrando-se como um cadáver recusando seu próprio enterro. Seu corpo ainda carregava trapos de tecido rasgado—um uniforme militar.
Provavelmente um soldado que nunca foi encontrado.
Assim que saiu da terra, ele atacou.
Gabriel conseguiu evitar o primeiro golpe por pouco, mas o impacto no chão quebrou as raízes ao nosso redor, lançando terra e lama para todos os lados. O Enraizado não era lento. Suas articulações pareciam rígidas, mas seus ataques eram diretos, pesados e brutais. Quando se movia, o som das raízes se torcendo soava como ossos estalando sob pressão.
Meu primeiro disparo não fez nada. O projétil perfurou o Lodo, mas as raízes se ajustaram ao impacto, selando a abertura como se nunca tivesse sido atingido. Esse não era um inimigo que podia ser simplesmente abatido com balas.
Mas Gabriel o segurou tempo suficiente para que eu pensasse em uma solução.
O Lodo era o núcleo. Mas as raízes... as raízes queimavam.
Peguei o último frasco de óleo e o atirei sobre a criatura. Gabriel, entendendo na hora o que precisava ser feito, golpeou a perna da coisa com força o suficiente para derrubá-la, e então, ateou fogo.
O Enraizado rugiu. Ou talvez fosse apenas o estalo das chamas consumindo sua estrutura. Suas raízes torciam-se em convulsões, tentando resistir. Mas o fogo queimou rapidamente através do Lodo e da madeira que o sustentava.
Em minutos, ele não era nada além de cinzas sobre a terra que nunca deveria tê-lo deixado voltar.

Os Enraizados são uma ameaça única. Eles não são apenas cadáveres reanimados, mas fundações inteiras de madeira e Morte unidas para criar algo que não deveria existir.
Eles não morrem com facilidade. Mas como qualquer madeira, podem ser queimados.
Fica a dúvida... quantos mais ainda estão enterrados por aí, esperando para emergir?

Que a Morte não se espalhe – e que a terra nunca rejeite seus mortos.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Relato de Campo: Vulto

Registro de Leônidas Lakota

Elemento Primário: Conhecimento 
Porte: Médio
Sentidos: Aguçados.
Resistência: Apresenta resistência corporal à cortes, balas e perfurações.
Fraqueza: Sangue
Físico: Extremamente ágil; Moderadamente inteligente e forte; Basicamente resistente.
            Movimentação mais rápida que a humanoide.

Padrão de Ameaça: Seu padrão é furtivo e predador, indo atacar principalmente aqueles com mais medo do impossível, atacando com garras impossíveis e querendo implantar mais medo naqueles para que se torne mais forte.

Dedicatória:
Nem tudo que enxergamos é real. Mas quando a Membrana está fraca, a diferença entre imaginação e verdade se torna uma linha tênue—e às vezes, essa linha simplesmente desaparece.
O Vulto é uma dessas manifestações. Ele não tem origem natural, não pertence a este mundo. Na verdade, ele não deveria existir. Mas quando o medo se instala em um ambiente onde a Realidade está instável, o próprio delírio do observador se torna matéria-prima para algo que jamais deveria tomar forma.
Ele surge na névoa, nas sombras mal interpretadas, nos cantos do olho onde algo parece se mover quando não deveria haver nada. Criado pelo Medo gerado pelo próprio cérebro, ele se torna uma cópia distorcida daquilo que você mais teme enxergar. Mas ao contrário das alucinações comuns, ele é real o suficiente para matar.

Encontramos um Vulto em alto-mar, a bordo de um barco pesqueiro.

A missão não era sobre ele. Estávamos investigando outra criatura—o Profundo—em uma área repleta de naufrágios inexplicáveis. O mar estava calmo, mas havia algo estranho naquela parte do oceano. A bruma era anormalmente densa, e o barco parecia pesado, como se estivesse sendo sugado para dentro das águas sem que o mar se movesse.
Os pescadores falavam sobre coisas na neblina. Não vi nada. Até que vi.
No canto da visão, um vulto se moveu. Virei rapidamente, mas não havia nada ali. O silêncio pesava, e a temperatura oscilava entre ondas de calor e frio cortante. Gabriel parou por um instante, franzindo a testa.
Você viu isso? (Eu vi também... algo não estava certo)
E foi assim que começamos a criá-lo.

A neblina ficou mais densa. A sensação de estarmos sendo observados tornou-se insuportável. O tempo todo, figuras escuras pareciam deslizar entre a bruma, mas quando nos virávamos, não havia nada. Então, o som de passos molhados ecoou no convés.
A criatura se formou bem diante de nós.
Era uma figura humanoide, mas nada nela era concreto. Seu corpo parecia feito de névoa sólida, mas não parava de se mover, como se estivesse em um estado de transição entre o mundo real e o Outro Lado. A forma oscilava, assumindo proporções impossíveis a cada segundo. Ela não tinha um rosto, mas quando olhei diretamente para ela, tive a sensação horrível de que estava olhando para algo que sempre esteve ali.
O Vulto atacou primeiro. Ao esquivar vimos suas garras rasgarem a lateral do barco como se a madeira fosse papel. Não era uma ilusão. Ele estava lá, e ele podia destruir.
Gabriel reagiu, desferindo um corte que deveria tê-lo partido ao meio, mas a lâmina apenas passou através dele. O golpe acertou, mas não o destruiu—porque ele não era real no sentido convencional.
A verdade se tornou clara. Ele era uma ideia.
E uma ideia só existe enquanto for acreditada.
A única forma de derrotar um Vulto não é com força bruta, mas com conhecimento e controle. Se ele nasce da paranoia, então a paranoia precisa ser quebrada. Nós paramos de olhar. Nós paramos de acreditar nele.
Mas isso não era suficiente. Precisávamos fixá-lo na Realidade antes que pudesse ser destruído.
Eu já havia começado o ritual de Sangue antes mesmo de ter um plano claro. Cortei minha palma, desenhei os símbolos sobre a madeira do convés, e murmurei os versos que fixariam o que não deveria ser fixado. O Vulto hesitou. Sua forma ficou mais nítida, sólida demais para continuar oscilando entre os planos.
Foi nesse momento que Gab agiu. Sua katana, agora carregada pelo ritual, cortou o Vulto ao meio. Dessa vez, ele não resistiu.
A criatura se dissolveu com um som abafado, como se tivesse sido engolida pelo próprio vazio. A névoa ao redor do barco começou a se dissipar, e junto com ela, a criatura desapareceu.
Dessa vez, não foi ignorada. Foi apagada.

O Vulto não é uma ameaça comum. Ele não vem até você—você o traz até si mesmo. Quanto mais medo e paranoia alimentam um ambiente, mais forte ele se torna. Mas sua fraqueza também está aí. Ele só pode existir enquanto houver crença em sua existência.
Mas se quisermos derrotá-lo, precisamos fixá-lo na Realidade antes que possamos eliminá-lo. O ritual de Sangue funcionou, mas a pergunta ainda permanece:
Se nós criamos o Vulto, o que mais podemos criar sem querer?

Que o Conhecimento nunca me cegue – e que o Medo nunca tome forma diante de mim.

Carajá do Sul (Início)

 Naquela época eu não entendia direito o que me tornava tão... diferente. Talvez fosse minha fixação. Talvez fosse o fato de que, enquanto...