segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Relato de Alheio: Memoflígico

Registro de Leônidas Lakota

Elemento: Conhecimento
Porte: Médio.
Sentidos: Capaz de ler memórias e pensamentos, mas incapaz de compreender emoções.
Resistência: Alta contra Conhecimento—não pode ser enganado por ilusões ou truques mentais.
Fraqueza: Sangue.
Físico: Flutuante e translúcido, seu corpo é extremamente flexível e difícil de atingir fisicamente. Seus múltiplos olhos verdes são seu único traço sólido e sua verdadeira fonte de percepção. Sua resistência física é baixa, mas sua influência psicológica compensa essa fraqueza, tornando-o uma ameaça difícil de combater diretamente.

Padrão de Ameaça: Manipulador e furtivo, o Memoflígico nunca ataca fisicamente, preferindo distorcer as memórias e pensamentos de suas vítimas para desestabilizá-las. Utiliza sinais eletrônicos para se comunicar e criar ilusões extremamente convincentes, imitando perfeitamente vozes e pessoas conhecidas. Ele só se manifesta fisicamente quando está sozinho com um alvo que confia nele, tornando a interação inevitável. Caso todos os dispositivos eletrônicos ao redor sejam destruídos descontroladamente, ele se transferirá para outro lugar, tornando sua derrota impossível. Sua maior fraqueza está em sua incapacidade de compreender emoções verdadeiras, limitando suas manipulações ao que é apenas lógico e previsível.

Dedicatória:
Se há algo que aprendi ao longo dos anos, é que as memórias são traiçoeiras. Pensamos que elas são fixas, que o passado está selado, imutável. Mas basta um detalhe fora do lugar, uma nova informação, um sussurro na hora errada, e tudo se desmancha.
Foi assim que essa coisa quase nos destruiu.
Ela não nos perseguiu. Não nos atacou. Não nos caçou.
Ela apenas nos fez duvidar um do outro.
E isso foi mais letal do que qualquer garra ou dente que já enfrentei.

Dia 1: A Voz

A loja de computadores antigos era um túmulo esquecido pelo tempo. Um daqueles lugares onde o passado parecia se agarrar às paredes, onde as telas quebradas refletiam mais do que apenas poeira e ferrugem.
O caso parecia simples. Falhas elétricas constantes, rádios captando transmissões impossíveis e o mais estranho de tudo: mensagens digitadas em telas sem energia.
Quando entramos, o cheiro de metal queimado pairava no ar. Havia cabos emaranhados pelo chão, monitores empilhados como lápides tecnológicas, e um silêncio absoluto. Nenhum som da rua parecia penetrar ali dentro.
Foi Gabriel quem notou primeiro.
— Tem alguma coisa ligando esses equipamentos. — Ele passou os dedos por um teclado quebrado. O monitor à frente piscou, mostrando um texto fragmentado:
"Vocês ainda estão aí?"
Meu coração parou.
— Não pode ser…
Dessa vez uma voz saindo dos alto falantes.
"Por que vocês nos deixaram?"
Meu sangue gelou. Gabriel ficou tenso ao meu lado. Nós conhecíamos essa voz.
Ivan.
Ele estava morto há anos.
Mas ali estava ele, falando conosco de dentro de um computador desligado.
E então, outra mensagem surgiu.
"Clarabella está aqui também."

Eu TIVE que sair dali, não estava me sentindo bem, Gabriel ficou lá mais um tempo depois me acompanhou... Voltamos pra lá amanhã...

Dia 2: O Passado

Não dormimos naquela noite. Gabriel e eu sabíamos que aquilo não era um fantasma. Algo estava nos observando, estudando nossas reações, brincando com nossos sentidos.
A loja parecia mais fria quando voltamos no dia seguinte. Havia algo diferente, como se a própria arquitetura tivesse se alterado. Os monitores piscavam sem motivo, rádios ligavam sozinhos, e o estático dos alto-falantes ressoava como um zumbido incessante.
E então, as vozes começaram.
Vocês se esqueceram de nós.
Era a voz de Clarabella, nítida e real, vinda de um rádio quebrado.
Deixaram a gente morrer.
Ivan.
Por que vocês não salvaram a gente?
As luzes piscaram, e quando se estabilizaram, eles estavam lá.
Clarabella e Ivan. Em pé, no meio da loja.
Eu senti meu coração acelerar. O instinto dizia que não era real, mas meus olhos diziam outra coisa.
— Isso não pode ser… — Gabriel murmurou ao meu lado.
Mas Clarabella deu um passo à frente. Os olhos cheios de lágrimas.
— Você sempre desconfiou dele, não é Leo?
Ela olhou diretamente para mim.
— Você achava que ele ia te abandonar, assim como vocês nos abandonaram. Você até pensou em abandonar tudo e ele pra sempre não é? 
O silêncio se tornou insuportável. Gabriel virou a cabeça para mim, os punhos cerrados.
— O que ela está falando?
Eu abri a boca para responder, mas Ivan interrompeu.
— E você, Gabriel. Você sabe que ele mentiu para você. Você sente isso. Sempre sentiu. Nos ainda estávamos vivos quando ele te tirou de lá. Eles nos deixou morrer.
A temperatura da sala caiu. Algo estava diferente. Eles estavam mais nítidos.
Não era apenas uma projeção.
Era uma ilusão completa.
E então, Gabriel me empurrou.
— Você esconde alguma coisa de mim?
— O quê? Não, isso é absurdo.
— Então diz. Você confiava em mim naquela noite. por isso só eu saí vivo?
A voz de Clarabella sussurrou novamente.
Ele hesitou em nos salvar, e só salvou você, por que você é burro e útil.
E eu realmente hesitei, eu queria sair vivo, e pelo menos com alguém. Pensei em todas as minhas memórias e todas as vezes que eu queria só sumir desse mundo, com uma bala na cabeça...
Por uma fração de segundo. Mas foi o suficiente. Eu não sabia como reagir...
Gabriel sacou a lâmina.
Eu puxei minha arma.
E a ilusão sorriu, observando do canto da loja.

Dia 3: O Acerto de Contas

Nós realmente lutamos.
Não foi um treinamento, não foi uma simulação. Foi real.
A ilusão nos tomou completamente e nos ensandeceu, nós esquecemos que havia algo manipulando nossas mentes. Só restava a raiva, a dúvida, a frustração acumulada ao longo dos anos.
O embate durou segundos, talvez minutos. Gabriel cortou meu braço, eu disparei para o lado dele, errando de propósito. Se tivéssemos continuado…
Um de nós teria morrido ali. Se matado... Eu não queria... Me desculpa... Você é meu irmão...
Mas então, os monitores explodiram.
A ilusão se rompeu.
Ivan e Clarabella desapareceram num piscar de olhos.
E ali, flutuando no canto da loja, estava ele.
O Memoflígico.
Seu corpo translúcido se retorcia como um reflexo num vidro trêmulo. Sua pele parecia pulsar com energia, e seus olhos verdes brilharam em pânico ao perceber que havíamos saído do transe.
E então, ele tentou fugir.
Mas nós não deixamos.

Eu e Gabriel agimos como um só.
Sabíamos o que fazer. O Memoflígico não podia existir sem um meio de transmissão.
Jogamos todos os eletrônicos ainda ativos para a mesma sala, forçando-o a um único ponto de conexão.
Ele tentou escapar, tentou buscar outra ilusão, mas nós já sabíamos que era falso.
E então, Gabriel atacou.
A lâmina rasgou o espaço onde ele flutuava, e no mesmo instante eu destruí os últimos aparelhos restantes.
A criatura gritou, seu corpo tremendo, os olhos piscando freneticamente em pânico absoluto.
Ele se contorceu.
E então, sumiu para sempre.

Me desculpa por tudo que aconteceu nessa missão Gabriel. Você é meu irmão. Eu te salvei aquele dia, e em todas as nossas missões, eu sempre vou te salvar. Eu ainda estou aqui.


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