sexta-feira, 13 de junho de 2025

Verdades Demais (Parte 3)

 A volta pra cidade foi feita em silêncio.

Ninguém falou nada no caminho.
Nem Ivan. Nem Gabriel. Nem Clarabella. Nem Camily.

Nem eu.

O que falar, afinal?
O que se fala depois de ver alguém que você conhecia... virar uma coisa?

Naquela noite, dormi olhando pro teto.
Sem conseguir fechar os olhos.
Cada vez que piscava, via aquele rosto.
Aquela... coisa que um dia foi o Jão.

O cheiro do sangue que não era sangue.
O som da carne esticando, da mandíbula se quebrando pra virar outra coisa.
E aquela mulher.
Aquele símbolo.

Ordem.


No dia seguinte, encontramos a resposta que não queríamos.
Clarabella foi a primeira a sugerir:
“A gente precisa achar ela. A mulher de ontem. Ela sabe o que tá acontecendo.”
Ninguém discordou.

Começamos a vasculhar os passos onde ela apareceu.
Fomos até o píer, perguntamos pra pescadores, donos de barraca, senhoras que vendiam cocada na praia.
Ninguém sabia de nada.
Ninguém tinha visto ela.

Foi Gabriel quem achou.
Em algum momento, a polícia parecia estar com problemas de conter uma grande comoção.
Chegamos mais perto para ver.

E... lá estava ela. Caída no chão.
O corpo contorcido.
Os olhos esbugalhados, fixos no vazio.

Ivan ficou branco.
Camily deu um passo pra trás, quase vomitando.

E foi aí que caiu a ficha.
Ninguém mais ia resolver isso.
Ninguém mais ia vir.

A mulher que sabia o que estava acontecendo... morreu.
Se a Ordem sabia? Não parecia que iria mandar ninguém a tempo.
Se não fizéssemos nada...
a cidade inteira ia cair.

Foi quando olhamos melhor para todas as situações e percebemos.

Havia pessoas na rua.
Gente andando, conversando, vivendo...
Mas alguma coisa...
alguma coisa estava errada com algumas delas.

Discussões estouravam do nada.
Gente batendo porta, gritando.

O clima em certos lugares...
era como se o próprio ar estivesse começando a ficar doente.



Relatório de Campo — Diagnóstico da Doença:
Nome provisório: “Síndrome Alterada.”
Transmissão: não biológica. Vetor emocional. A doença se espalha a partir de exposições prolongadas a traumas, estresse extremo, tristeza, raiva ou dor não tratada.

Progressão da infecção:
Estágio 1:
- Agitação, irritabilidade, estresse crescente.
- Sede insaciável.
- Instabilidade emocional extrema.
Reversível com suporte emocional, acolhimento e tratamento dos traumas.

Estágio 2:
- Degeneração física: rachaduras na pele, emagrecimento acelerado, olhos opacos e esbranquiçados.
- Mandíbula começa a deslocar-se além dos limites anatômicos.
- Dificuldade severa de reversão, mas ainda possível.

Estágio 3:
Transformação completa:
- Pele fina, translúcida e pegajosa.
- Mandíbula expandida, dentes pontiagudos e desproporcionais.
- Crescimento de garras com nadadeiras membranosas entre os dedos.
Irreversível. A identidade humana é permanentemente destruída.




Passamos aquela noite tentando entender tudo.


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