sexta-feira, 13 de junho de 2025

Uma Cidade Doente (Parte 4)

 O cheiro da cidade mudou.
Era sutil.
Talvez só pra mim?

Pra quem não estivesse prestando atenção, parecia só maresia e calor de concreto molhado.
Mas eu sabia.
Eu sentia algo estranho.

Que estranho.

No mapa, riscamos com caneta os bairros onde os sinais pareciam mais fortes pelo radar.
Gente mais nervosa. Brigas surgindo do nada. Crianças chorando por horas sem motivo.

A cidade estava doente mesmo.
Por dentro.

No primeiro dia de busca ativa, investigamos três pessoas.
E foi aí que depois de tudo entendemos a regra cruel dessa doença.

Só dava pra salvar quem ainda estava no nos dois primeiros estágios.
Na época éramos jovens e não pensávamos muito em possibilidades, mas a minha pesquisa atual, revela que tinham 3 estágios de deterioramento.

Gente que estava nervosa, irritada, desesperada, perdida nos próprios traumas.
Mas que... ainda era gente.

Conversar ajudava, mas é sempre um sentimento específico. Uma memória.
Fazer a pessoa desabafar, rir, acalmar, entender que não estava sozinha.
Aquilo parecia... empurrar a doença pra longe.

“É como se... como se essa coisa só pegasse quem já tava quebrado.” — disse Clarabella, folheando o caderno da agente morta. — “Quem não aguenta mais.”


Mas quando chegávamos tarde demais...
O som vinha primeiro.
Uma respiração pesada.
Molhada.

Depois, o cheiro.
De ferrugem, de carne suada, de desespero.

Pele rachada.
Olhos leitosos.
Mandíbulas começando a se abrir além do que a anatomia permite.
Garras em formação.
(O Segundo Estágio da doença, posteriormente descoberto)

Ali...
Era uma corrida contra o tempo.

Se acalmássemos rápido, se conseguíssemos fazer a pessoa lembrar de quem era, às vezes... dava.
Às vezes.
Mas...
Nem sempre.


No segundo dia, Camily começou a mudar.
Não fisicamente.
Mas... no jeito de olhar.

Ela andava mais afastada.
Evitava entrar nos lugares mais perigosos.
Abaixava o olhar quando alguém pedia ajuda.

“Isso não é pra gente...” — ela disse, olhando pra praia, com os olhos vermelhos. — “A gente não... a gente não devia estar fazendo isso.”

Ninguém respondeu.
Porque... ninguém discordava.

Mas o que fazer, então?
Abandonar?
Fingir que não estava acontecendo?


Nota Adicional de Anos Após a Investigação:
Relatório de Campo — Progressão da Infecção na Cidade:
Total de habitantes afetados estimado: 19% no primeiro estágio, 5% no segundo, 1% no terceiro.
- Projeção de colapso da cidade: 72 horas se vetor emocional não for interrompido.
- Observado: a infecção acelera exponencialmente em áreas de conflito familiar, violência doméstica e histórico de traumas não tratados.
- Notado também: certos locais parecem ser focos mais fortes.



No fim do terceiro dia, a cidade parecia um campo de batalha silencioso.
Pelo menos aos nossos olhos. Não sabíamos mais o que fazer.
Tivemos orientação. Mas mesmo assim, a luta já parecia perdida desde sempre.

Camily não aguentou.
E saiu.
Saiu andando.
Não olhou pra trás.
Nunca mais voltou.

O grupo ficou menor.
O peso ficou maior.

E, com ele...
a certeza:

Nós não iríamos conseguir salvar ninguém.



Nota Adicional de Anos Após a Investigação:
Relatório de Campo — Baixas no Processo:
- Durante os dias de investigação:
  • Falecimento de Jão, grande amigo de Ivan Machado.
  • Falecimento de Lexa Lakota, mãe de Leônidas Lakota










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